Resenha - Os casos de Agatha Leblanc

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Quem é Fernando Bueno Neves? Não sabe quem é ou nunca sequer ouviu falar sobre ele? Não se preocupe, garanto que ainda vão ouvir muito a seu respeito e digo-lhes quem é. Fernando é meu “quiridu” conterrâneo, de 22 anos, aluno de Graduação de Medicina na UFSC e está ingressando no mundo literário com seu primeiro romance sendo autopublicado na plataforma da Amazon. O livro foi disponibilizado hoje, dia 27, em formato de e-book. E, como tive o privilégio de ter uma versão de sua estreia, trago a vocês a resenha do livro “Os casos de Agatha Leblanc”.


Agatha é uma francesa muito patriota, que tem uma paixão incomparável pela arquitetura e um gosto excêntrico de literatura. Marcos é um manezinho que se mudou para França por meio de intercâmbio e lá conheceu Agatha, por quem se apaixonou perdidamente. Após três anos de namoro o casal faz uma viagem de férias à capital catarinense, Florianópolis. Ao chegarem nesta terra em que andar com um guarda-chuva na bolsa é um item de sobrevivência, a trama finalmente se inicia. Fantasmas do passado vêm à tona, como também mistérios a respeito da protagonista ser levada à emergência do Hospital Universitário, apresentando possivelmente um quadro clínico de envenenamento. O que teria acontecido com Agatha? 

A cada capítulo, novos personagens vão sendo inseridos de forma que a história avança ou retrocede, ampliando o leque de possibilidades do que pode estar realmente acontecendo. É tecida uma grande teia que nos leva a duvidar de cada um dos envolvidos na narrativa, fazendo com que mudemos de opinião e de apego frequentemente pelos personagens.

Inicialmente escrita como um texto teatral de uma peça que não foi encenada, acabou se tornando uma narração envolvente, a qual Fernando traz nela o suspense da literatura moderna brasileira.

Confira abaixo o Prólogo:

"Marcos admirava Agatha com a paixão que tornava deficientes os seus sentidos, como se ela fosse uma entidade que só então havia deixado o plano metafísico das coisas perfeitas. Agatha admirava o aqueduto.
O casal de namorados, mãos dadas em frente à lâmina de água que enquadrava o céu azul, solidificava-se como uma única entidade congelada no tempo, paradoxal para o meio externo e antitética em si mesma. Todo o burburinho e conversas de turistas não os afetava. Ainda que muito movimentada, a Promenade du Peyrou, ponto do qual se apreciava uma visão panorâmica da velha e nova Montpellier, servia-lhes como um passaporte dimensional. Estavam conectados apenas com seus pensamentos, sob o céu azul do sul francês.
Ele acariciava a mão fina da sua namorada. Esboçava um sorriso bobo, um desesperado esperançoso, ao lembrar-se do quão sortudo era ao namorar Agatha Leblanc. Pelo jeito imaculado com o qual ela se vestia – sempre a idealizava na figura perfeita da mulher provinciana. Seus acessórios pensados, os chapéus e os xales que com cuidado escolhia, os seus olhos cinzentos por trás dos óculos escuros. Pelo modo distinto como sorria, pelos comentários astutos que o desafiavam intelectualmente, ou por ser tão agradável o timbre da sua voz. Montpellier possuía uma beleza intrínseca que não se podia subestimar, Marcos sabia. Mas Montpellier não era Agatha Leblanc.
Ela deixava sua mão ser acariciada pela do seu namorado. Seus olhos lupinos iam de um detalhe a outro, analisando o visual deslumbrante diante de si com todo o conteúdo teórico que floria em sua cabeça. Contrastava mentalmente o Aqueduto de Saint-Clément com o protótipo arquitetônico daquele tipo de estrutura: a Pont du Gard. Os seus arcos repetitivos; o adorno com o brasão sobre a pedra angular; os blocos que primeiro foram erigidos há séculos e séculos. Marcos apertou sua mão de novo. Ela suspirou.
"C'est magnifique ça ou pas?"
"Quoi?", ela perguntou, seus devaneios arquitetônicos sendo estilhaçados.
"Toi."
Ela riu o seu riso curto, cujo significado Marcos já estava experiente em decifrar.
"Então... falar em português? Vamos?"
Agatha deu as costas para a vista, virando-se em direção à entrada do centro histórico de Montpellier. Ela retirou seus óculos, fazendo com que seus olhos fossem, então, maltratados pelo sol intenso. "Ainda... tenho que... penser."
"Pensar."
"Penser. Pensar."
Marcos inclinou-se para beijar a bochecha ossuda dela, e, juntos, seguiram caminhando sem rumo em uma direção definida: o centro histórico.
"Mas por que tu ainda tem que pensar?"
"Sais pas. Passer um mês no Brésil? Juste terminei meu Doctorat. Acho que non é a hora", Agatha respondeu na sua voz suave e firme, com seu sotaque arrastado de uma forma que não lhe esconderia a nacionalidade em lugar algum do mundo.
"Eu sei que tu vai gostar muito de Floripa. E a gente tá namorando há três anos." Passaram por um casal com protetor solar nos rostos orientais, rodeado por três filhas. Uma das meninas apontou para a saia preta com bolinhas brancas de Agatha e sorriu, falando frases para a sua mãe em uma língua que era desconhecida tanto por Agatha quanto por Marcos. "Eu já conheci Clermont, e mais de uma vez. Tá na hora de toi, ma demoiselle, conhecer a minha cidade natal."
Agatha permaneceu em silêncio, confabulando solitária na companhia de Marcos. Recolocou seus óculos escuros sobre o nariz fino. "Sais pas."
"Por favor, Agatha. Eu sei que tu vai gostar."
"E... quoi tem lá pra eu ver? Em ‘Floripe’."
Quando já debaixo do grande arco de entrada para o centro histórico, Marcos virou-se de volta para a Promenade du Peyrou, fazendo menção para que ela o acompanhasse. Encararam, mais uma vez, a pintura panorâmica que a vida real lhes proporcionava: a esplanada circundada por uma cidade milenar. Do extremo de um lado, o caminho para a campanha francesa. Do extremo de outro lado, as águas cerúleas do Mediterrâneo.
Agatha, de novo, riu o seu riso curto.
"Eu non sei a ‘palavre’. Mas isso é... preten... eu non sei se existe em portugais. Prétentieux."
"Pretensioso."
"Voilà."
O casal, então, retomou o seu caminhar em direção ao quente e movimentado centro histórico. "Vamos ver, Agatha. Mas eu sei que tu vai amar Florianópolis."
"J'espère."
Caminharam, e caminharam até que ele, em um movimento mais rápido, deu um passo à frente de Agatha e encarou-a, aquela figura esguia que era dez centímetros mais baixa. As sardas manchando o nariz, a boca fina que quase se escondia quando ela sorria, e os traços felinos que exteriorizavam a sua mentalidade aguçada.
Marcos beijou Agatha apaixonadamente, com o rosto dele tocando, desajeitado, os óculos escuros dela.
"Eu te amo, Agatha."
"Eu te amo aussi, Marcos."
E voltaram a passear, os dois, por entre as ruelas em desnível, entre o amálgama de línguas estrangeiras, entre o francês arranhado de turistas ousados. Assim, o centro de Montpellier desenhava-se ao redor deles, com o aroma de baguettes frescas e com o sol mais tropical que a França podia oferecer. Já haviam sido três anos de promenades, três anos de je t'aime mon amour, três anos de Agatha et Marcos. E, quando almoçando um de frente ao outro na vibrante e ruidosa Place de la Comédie, os pensamentos do casal divergiam quase que artisticamente.
Marcos pensava em Agatha.
E Agatha ainda pensava no aqueduto."

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