Resenha: O Vilarejo - Raphael Montes

Comentários



- Não acredito em deus, na verdade. Também não acredito no diabo.
- Suponho que não precisem que as pessoas acreditem neles para existirem.

Curto, seco, brutal. Esse é o vilarejo.
Raphael Montes nos trouxe uma série de contos incríveis, com elementos conhecidos por todos, mas com uma abordagem surpreendente e sanguinária.
Preparado para bater à porta de Felika?

Esta resenha não contém spoilers.



O AUTOR - RAPHAEL MONTES


Gula, inveja, ganância... Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld atribuiu cada pecado a um demônio, que se materializa no coração das pessoas para que elas acabem se rendendo a eles. É a partir desta premissa que o escritor conta a história do Vilarejo, castigado pelo frio e pela fome, sumindo do mapa sem nenhuma explicação. Sequer sabemos se realmente um dia existiu. 

Raphael diz ter recebido a história de um sebo, herança de Elfrida Pimminstoffer, uma senhora que falecera e deixara seus livros, que foram rejeitados pela família. Escrito em uma língua morta, Raphael acaba por descobrir que o único capaz de traduzir é um padre italiano, chegando lá, o padre ao ler o manuscrito, se recusa a dizer do que se trata, deixando apenas um dicionário para que ele mesmo descobrisse o que aquelas letras escondiam.

Após algum tempo ele reuniu em "O Vilarejo" os sete contos traduzidos e dispostos da forma que ele achou melhor, porém podem ser lidos da forma como você quiser, sem que se perca o sentido. 

Na ordem que o autor coloca, temos:






01 - Belzebu: Banquete para Anatole.

O conto que abre o livro é o preferido da maioria. Afinal, em apenas 6 páginas o livro mostra pro que veio: assustador, cruel e à beira da insanidade. Felika, a preocupada mãe de três filhos busca a sobrevivência a qualquer custo enquanto o seu marido, Anatole, enfrenta o gelo mortal que assola a cidade para buscar alimento. Mas o que o frio, a solidão e principalmente a fome (afinal o demônio que encabeça o conto é o responsável pela gula) é capaz de fazer? 







02 - Leviathan: As irmãs Vália, Velma e Vonda.

Três jovens irmãs aparentemente indefesas vivem tranquilamente no vilarejo. Enquanto Vália, a irmã mais velha, namora em um banco, as outras duas irmãs, gêmeas, brincam com sua amiga Jekaterina de escrever contos. Porém qual o limite entre a escrita e a realidade? Nota: Leviathan prega a inveja. 

03 - Lúcifer: O negro caolho.

Soberba. Um negro chega no vilarejo, assombrando as pessoas que nunca viram um ser escuro como aquele e resolvem assassiná-lo. Mas uma bondosa mulher o salva da crueldade da vizinhanca, mesmo com os alertas de que aquele homem negro poderia ser um risco dentro de sua casa. Mas será mesmo que ele é o responsável pelo mal?

04 - Asmodeus: A doce Jekaterina.

Luxúria. Uma jovem menina desperta o interesse de um homem mais velho, que fará de tudo para saciar os seus desejos. Qual é o pior castigo, afinal de contas? Realmente é a morte?

05 - Belphegor: A verdadeira história de Ivan, o ferreiro.

A preguiça reina nesse conto. Ivan demonstra que, mesmo com frio e fome, não é capaz de se esforçar para sobreviver, buscando atalhos mesmo que crueis. O que você faria para poupar esforços?








06 - Mammon: O porquinho de porcelana da Sra. Branka.

É a vez da ganância tomar conta do vilarejo. A Sra. Branka sempre se preocupou com as economias dentro de sua casa, presenteada pelo seu contador com um porquinho de porcelana, ela faz com que sua neta, Latasha, sofra com fome e trabalho forçado para que seus rendimentos não caiam. Será que realmente vale a pena tanta avareza, no fim das contas?








07 - Satan: O homem de muitos nomes.

Detalhe das páginas
Voltamos para o tempo do primeiro conto, aqui, seguimos a trilha de Anatole, que partiu em busca de comida, lembra? Pois bem, ele enfim consegue uma maleta com dois coelhos e um rato para alimentar sua mulher e seus filhos, dados por um velho misterioso no meio do gelo. Mas ao voltar pra casa ele se depara com uma cena capaz de enlouquecer qualquer ser vivo e forçar qualquer um a tomar medidas de ira. Mas será que esse pecado já não estava com ele antes mesmo disso tudo?

O livro é contado indo e voltando no tempo e nos faz refletir sobre a crueldade humana personificada nos pecados. Em momentos críticos é que mostramos que realmente somos, tomamos ações impensadas e fora do comum. 

O livro é perfeito e pode ser lido de uma única vez, já que totaliza no máximo 70 páginas. O único pecado desse livro é ser tão curtinho, você quer mais 50 contos nesse estilo! As ilustras também merecem destaque, algumas são aterrorizantes e todas combinam muito bem com a história. 
Ah, antes que eu me esqueça, NÃO ABRA AS ÚLTIMAS PÁGINAS DO LIVRO, você pode acabar descobrindo o fim no posfácio, o que faz perder um pouco a graça do susto que temos ao chegarmos lá. Enfim, é isso, livro super recomendado. Mais uma vez a literatura nacional demonstrando que tem salvação!

Conta pra gente o que achou. :) 








Nenhum comentário:

Postar um comentário

Valeu pelo comentário!